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Tomistoma lusitanica (VIANNA & MORAIS, 1945)

 

O Crocodilo Miocénico de Chelas (Gavialosuchus americanus var. lusitanica/Tomistoma lusitanica

Jorge Sequeira

 

Fig.1 - Tomistoma lusitanica (VIANNA & MORAIS, 1945)- fotografia original de Jorge Sequeira

 

Fig.1 - Tomistoma lusitanica (VIANNA & MORAIS, 1945)- fotografia original de Jorge Sequeira

 

As diferentes litologias (calcários, areias e argilas) que constituem as unidades sedimentares do Cretácico, do Paleogénico e do do Neogéncio e as rochas basálticas do Complexo Vulcânico de Lisboa, aflorantes na região de Lisboa, foram desde muito cedo alvo de exploração para a obtenção de rochas e minerais industriais - pedra para construção e para o fabrico de cal, areia e argila - fundamentais para a indústria de construção e outras, cuja utilização em determinados momentos históricos não se restringiu apenas à área urbana da cidade. A exploração desses geomateriais atingiu, por vezes, certa expressão e contribuiu de forma inequívoca para o conhecimento geológico da região.  

 

A abundância e qualidade dos recursos naturais da Lisboa em que se incluem os recursos minerais não metálicos e, em particular, os materias de construção, de que se destacam a excelência das suas características tecnológicas, abundância, razoável facilidade de exploração e proximidade dos locais de construção, foram até aos anos 60 do sec. XX factores favoráveis para o desenvolvimento urbano da cidade.

 

A partir dos anos 30 do Sec. XX, Lisboa expande-se para além dos limites das avenidas traçadas no final do Sec. XIX, observando-se que, à medida que a cidade vai crescendo para Norte e Oriente, a exploração de recursos geológicos acompanha a evolução da cidade.

 

As necessidades crescentes e as condicionantes económicas ditam que alguns materiais de baixo valor unitário tenham que ser obtidos o mais perto possível do local onde vão ser utilizados, o que conduz eventualmente ao seu rápido esgotamento, o que conjugado com o facto de que, por vezes, a actividade extractiva num determinado local se torna incompatível com o crescimento urbano, a demanda e a importância estratégica desses recursos, conduz a que a sua exploração (dos mesmos recursos) se inicie em locais distintos dos originais ou a que se inicie o aproveitamento de outros menos valorizados no passado por estarem menos acessíveis, por não ter sido necessária a sua exploração ou por apresentarem características tecnológicas inferiores.

 

Neste contexto e, em particular, no que se refere à exploração de areia para as construções da cidade de Lisboa, material de construção fundamental - explorado tradicionalmente em algumas unidades do Miocénico de Lisboa (principalmente na Divisão MIVb de Cotter – Areias da Quinta do Bacalhau, aflorantes perto do centro da cidade) e no Pliocéncio da margem sul do Tejo (Alfeite) - observa-se que a partir dos anos 30 do Sec. XX, necessariamente motivadas pela modernização e expansão da cidade, são abertas grandes explorações de areia (areeiros), localizados entre outros locais, na zona do actual Aeroporto de Lisboa, Avenida do Brasil, Avenida Almirante Gago Coutinho (Areeiro) e Chelas, em que se aprofunda ou inicia a exploração de areias das unidades miocénicas (MIVb - Areias da Quinta do Bacalhau, MVa2– Areias com Placuna miocenica e  MVb - Areias de Vale de Chelas), mais acessíveis e de transporte mais barato que outras tradicionalmente consideradas superiores. Este episódio coincide com o início da utilização em larga escala em Portugal do betão, de que a areia é constituinte fundamental.

 

Assim, a partir do final dos anos 30 do Sec. XX, tornaram-se frequentes as descobertas de restos de vertebrados, grupo até então mal conhecido no Miocénico português, à medida que se intensifica ou se inicia a exploração das areias das unidades Miocénicas aflorantes a norte do rio Tejo, umas tradicionalmente conhecidas e de reconhecida qualidade e outras até então consideradas pouco interessantes sob o ponto de vista industrial.

 

Numa primeira fase muitos dos achados são oferecidos aos Serviços Geológicos de Portugal pelos exploradores dos areeiros, passando a ser sistematicamente recolhidos no âmbito da actividade do pessoal técnico-científico dos Serviços Geológicos de Portugal, em particular, após a entrada ao serviço deste organismo do estado, no final de 1939, do geólogo Georges Zbyszewski, por convite do seu director, Eng. António Vianna, autor de alguns trabalhos sobre vertebrados fósseis.

 

Em Junho de 1941, no 1º Congresso Nacional de Ciência Naturais, realizado em Lisboa, A. Vianna  e A. Moraes, dão notícia da descoberta de um crânio de Crocodilo muito completo nas areias da Divisão Vb do Miocénico de Lisboa, em exploração na Quinta da Farinheira em Chelas[1]. O exemplar oferecido ao Museu dos Serviços Geológicos de Portugal pelo seu descobridor o Sr. Batalha de Almeida, fragmentou-se durante a exumação, tendo sido reconstruído pelo colector e conservador do Museu dos SGP, Manuel de Mattos.

 

Neste trabalho, cuja versão em língua francesa foi publicada em 1945 no Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, são reconhecidas pelos seus autores características comuns com os crocodilos dos géneros Gavialosuchus e Tomistoma. Do estudo morfológico comparativo com outros crocodilos Miocénicos conhecidos e descritos - nomeadamente, Gavialosucus americanus, do Miocénico da Florida e Gavialosucus eggenburgensis do Miocéncio da Austria (à época os únicos representantes conhecidos deste género) e com Tomistoma calaritanus do Terciário de Itália eTomistoma gavialoides do Eocénico do Egipto - concluem que o exemplar de Lisboa, pertencia a uma nova variedade do géneroGavialosuchus americanus, que designaram porlusitanica.

Fig.2 - Representação esquemática do crânio de Tomistoma lusitanica (VIANNA & MORAIS,1945)

 

Estudos posteriores (Antunes, 1961;1987;1994), atribuíram este exemplar de crocodilo longirrostro de idade langhiana, ao género Tomistoma, considerado sinónimo de Gavialosuchus (Antunes, 1994)

 

Excelentes nadadores e tolerantes a pequenas variações de salinidade das águas, os indivíduos da espécie Tomistoma lusitanica, oriundos da Ásia, terão chegado à Europa, assim como outros crocodilos longirrostros(exº Gavial), no início do Burdigaliano (Antunes, 1994).

 

A subida do nível das águas da trangressão do Burdigalino, foi provavelmente um dos factores favoráveis à migração dos crocodilos longirrostros do Miocénico, oriundos da Ásia, renovando a fauna de crocodilos europeus que tinha entrado em declínio no final do Paleogénico, na medida em proporcionou a abertura da via aquática necessária para que esta se efectuasse (Antunes, 1994).

 

Os primeiros aparecimentos de restos de crocodilos da referida espécie, em Lisboa, ocorreram nas areias da Div. II – Areolas de Estefânia, datada do Burdigaliano Inferior, são frequentes a muito frequentes nas unidades datadas do Burdigaliano Superior e Langhiano (Div. IVb, Va Vb), entrando em declínio no Langhiano Superior, ocorrendo raramente nas unidades com esta idade. As últimas presenças destes répteis foram assinaladas em Lisboa nas areias da Div. VIIa – Areolas de Braço de Prata, datada do Tortoniano (Antunes, 1961)

 

Os crocodilos são importantes indicadores climáticos, o género Tomistoma, tal como outros crocodilos, são formas habitualmente associadas a ambientes quentesnão tolerando grandes variações de temperatura, estando portanto o seu desaparecimento provavelmente relacionado com aridez crescente e descida de temperatura que se verificaram a partir do início do Miocénico Médio (Antunes, 1994).

 

Quanto ao habitat deTomistoma lusitanica, os estudo das características sedimentológicas e de reconstituição dos paleoambientes dos locais em Lisboa onde foram encontrados os seus restos, indicam que estes crocodilos de grandes dimensões, que podiam atingir mais de 5 metros, viveram em regiões estuarinas, sendo capazes de fazer incursões em zonas marinhas, ricas em alimento (Antunes,1961)

 

Fig.3- Esquema estratigráfico para o Cenozóico da BBT (Sector intermédio e Distal). Adaptado de Pais et al., 2010

 
 

 

 

Bibliografia

ANTUNES, M.T .,1961. Tomistoma lusitanica, Crocodilien du Miocène du Portugal. Revista Fac. Ciênc, 2 ª série – C, v. IX (fasc.1), pp. 5-88, Lisboa

ANTUNES, M.T.,1987. Affinities and Taxinomical Status of Miocen e Longirostrine Crocodilians from Western Europe with Remarks on Phylogeny, Paleoecology and Distribution. Comm. Serv. Geol. Portugal, 1987, t. 73, fasc. 1,  pp. 49-58, Lisboa

ANTUNES, M.T., 1994. On Western Europe Miocene Gavials (Crocodylia) their Paleogeography, Migrations and Climatic significance. Comun . Inst. Geol. e Mineiro, t. 80, pp. 57-69, Lisboa.

PAIS, J., CUNHA, P.P., LEGOINHA P., 2010. Proposta Litoestratigráfica para o Cenozóico de Portugal in Neiva, J. M. C.; Ribeiro, A.; Victor,  M.; Noronha, F.; Ramalho, M.(eds.), Ciências Geológicas – Ensino e Investigação e sua História, pp. 365-376, Ed. Associação Portuguesa de Geólogos, Lisboa.

RIBEIRO, O., 1949.Engenheiro António Vianna. Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, VIII (I-II), pp. 135-140, Porto.

VIANNA, A. & MORAIS, A., 1945. Sur un crâne de crocodile fossile découvert dans le Miocene de Lisbonne. Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, Vol. IV, Fasc. III, pp.161-171, Porto.

 

 

 

 

 


[1] No alinhamento da actual Av. Républica da Bulgária

 

 

 

Actualizado em 2013/2014