"Podemos desperdiçar muito menos"

Entrevista a Rui Frazão, investigador do Laboratório Nacional de Energia e Geologia

Rui Frazão, investigador do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, sublinha a importância do ecodesign para se atingirem as metas propostas no Plano Nacional de Gestão de Resíduos, cuja consulta pública termina esta sexta-feira. As avaliações intercalares serão essenciais, segundo o responsável, para analisar se as acções estarão a ter o resultado esperado.

Que avaliação faz deste projecto de Plano Nacional de Gestão de Resíduos 2011-2020?

Fazia falta um documento enquadrador para a gestão de resíduos a nível nacional com uma visão clara e objectivos estratégicos mensuráveis e facilmente entendíveis pelos vários agentes, em linha com as políticas europeias.

Embora já existam diversos planos sectoriais que apontam nesse sentido, era necessário que um plano nacional enquadrasse bem a questão: a gestão de resíduos tem de ser encarada numa óptica de ciclo de vida e como fazendo parte do sistema económico, e não como um mero apêndice constituído pelas saídas não desejadas de todas as actividades económicas a que é preciso dar um destino seguro e ambientalmente adequado.

É pois estrategicamente importante relacionar a gestão de resíduos com a gestão sustentável de recursos e perceber o que é que isso implica na prática e o que é que temos de mudar na maneira como até aqui temos agido.

E, na minha opinião, o projecto que é proposto consegue fazê-lo de forma clara e simples, não apenas através da visão e objectivos estratégicos, mas também pela definição de metas concretas e objectivos operacionais a concretizar por um conjunto de acções.

Por outro lado, também se propõe que tanto as metas como as acções sejam sujeitas a avaliações intercalares, o que permitirá detectar e corrigir o que não estiver a ter bons resultados.

Deve ainda realçar-se que o que é proposto é inserido no contexto económico e social em que vivemos e articulado com objectivos de desenvolvimento que estão definidos noutros documentos estratégicos. Percebe-se facilmente que em Portugal se cria muito menos riqueza a partir da mesma tonelada de materiais do que noutros países europeus, o que significa que a nossa produtividade de recursos podia ser melhor, ou seja podemos desperdiçar muito menos.

E este aspecto está relacionado com a maneira como produzimos e consumimos. Quando recomeçar o crescimento da economia será possível diferenciar o que são boas práticas do que são práticas não desejáveis que deixámos de fazer apenas por não ter poder económico para isso. As metas propostas poderão ser determinantes para que as primeiras se sobreponham às segundas.

Qual a importância do ecodesign neste âmbito?

O ecodesign é fundamental para se atingirem as metas propostas. Já todos conhecemos produtos que consomem menores quantidades de materiais e menos energia para atingir o mesmo resultado (por exemplo, os electrodomésticos actuais, comparados com os electrodomésticos de há dez anos atrás). Já conhecemos também produtos cujo processo de produção é mais eficiente e acarreta a geração de menores quantidades de resíduos (por exemplo, os materiais de construção e os produtos cerâmicos).

Mas é preciso olhar para todo o ciclo de vida, tanto para o seu início, o que implica seleccionar materiais cujos processos de extracção e processamento são também mais eficientes, escolher alternativas economicamente viáveis a substância perigosas e privilegiar o uso de materiais renováveis (desde que a taxa de exploração não ultrapasse a sua taxa de renovação), como para o seu final, o que implica estratégias de design que facilitem a desmontagem e a recuperação dos componentes e materiais utilizados nos produtos após o seu tempo de vida.

É também necessário desenvolver soluções mais duráveis para as mesmas finalidades. Tal significa que o design não é apenas operacional, pode também ser estratégico, uma vez que esta opção pode significar que quem produz tenha de alterar o seu incentivo de lucro.

O lucro não pode depender apenas da quantidade de produtos vendidos, mas sim da qualidade dos serviços prestados pelos produtos. O que significa que o próprio design pode ser uma ferramenta útil para o desenvolvimento de novas formas de vender e comprar.

Que estratégias considera prioritárias no sentido de uma maior eficiência na gestão dos resíduos?

O que queremos é dissociar a criação de riqueza e o desenvolvimento económico e social do consumo de materiais e da geração de resíduos. Ou seja, satisfazer mais necessidades e expectativas a partir da mesma quantidade de recursos, gerando menores quantidades de saídas não desejadas do sistema económico para o ambiente.

Daqui decorre que as estratégias prioritárias têm de se basear na prevenção e no fecho dos ciclos de materiais. Para prevenir há que desmaterializar a economia e aumentar a produtividade dos recursos, para fechar os ciclos há que transformar as saídas não desejadas do sistema económico em reentradas com utilidade para o sistema.

Neste segundo aspecto, há que ter em conta que alguns fluxos de materiais poderão vir a ter importância estratégica a curto prazo. Em particular, certos metais presentes em produtos electrónicos e sistemas fotovoltaicos como o índio e o gálio.

Tanto estes metais, como as chamadas terras raras e o grupo das platinas são materiais considerados estratégico pela União Europeia porque são necessários para o desenvolvimento de diversas tecnologias emergentes e praticamente não existem no território europeu.

Países como a China e os Estados Unidos têm já barreiras à sua exportação. Neste contexto, o fechar dos ciclos através do desenvolvimento de sistemas de recuperação destes materiais a partir de produtos em fim de vida é especialmente relevante.

Por fim, envolver os cidadãos e formar os agentes do sector é essencial para que tudo isto possa ser realizado com bons resultados, com a ideia sempre presente de que gerar menos desperdício é sempre economicamente atractivo.

Autor/Fonte: Diana Catarino

in Portal do Ambiente Online a 14-07-2011

Pesquisar nesta área