Portugal tem que apostar em boas parcerias comunitárias

Entrevista | Teresa Ponce de Leão, Presidente do LNEG

Teresa Ponce de Leão, Presidente do LNEGO atual contexto económico obriga o país a ser mais consciente nas suas decisões e Portugal tem que ser bom para garantir a entrada em parcerias ganhadoras de fundos comunitários, alega Teresa Ponce Leão, presidente do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG).

Como caracteriza a capacidade de aproveitamento de Portugal das suas possibilidades de produção de energia a partir do calor, do vento e das ondas do mar? Qual destas áreas tem, nesta altura, um potencial mais relevante?

Portugal, pelo seu clima, localização e geografia tem um potencial enorme de recursos naturais. O nosso país encontra-se localizado numa zona de radiação solar mais intensa da Europa, o que quer dizer que o potencial rendimento de qualquer tecnologia solar é seguramente superior quando comparado com  zonas  de centro ou
norte da Europa.

O potencial eólico identificado desde há alguns anos, quer em território emerso, quer imerso, é bastante promissor em várias zonas do país, o que está confirmado pelo número de parques eólicos que temos instalado. A este respeito diga-se que Portugal, em 2005, tinha identificado o potencial eólico sustentável do nosso território emerso a partir de um estudo no LNEG. Este estudo permitia concluir que a partir do Atlas Eólico de Portugal e do conhecimento das restrições orográficas, ambientais e de utilização do terreno, o nosso potencial era da ordem do 6000 MW. Foi este estudo que serviu de base ao lançamento dos concursos para investimentos em eólica que neste momento, em 2012, correspondem a uma potência instalada de cerca de 4300 MW. Possui ainda um potencial das ondas muito parecido com o da costa da Grã Bretanha, isto é, suficientemente elevado para fazer prever bons rendimentos, e no caso da eólica no mar os estudos até ao momento indicam potenciais muito promissores. 
 
No entanto, neste caso, devido às características da costa portuguesa é necessário estudar os fundos marinhos e encontrar estruturas suficientemente robustas para suportar os esforços a que as infra-estruturas ficam sujeitas desde os mecânicos aos de corrosão. Sem dúvida o potencial mais relevante é o da eólica, que alia a existência do recurso natural associada ao estado de desenvolvimento e maturidade da tecnologia.

Que contributo económico pode o país esperar, a médio e longo prazo, das fontes de energia renováveis?

Portugal está em linha com a Europa e em total compromisso com as apostas europeias. Até ao momento temos uma potência instalada cerca de 50% de renováveis. Há uma panóplia de oportunidades na eficiência energética e produção distribuída considerada como a nova revolução industrial. De facto, este setor oferece um conjunto de oportunidades, quer para a investigação & desenvolvimento, quer para a inovação.
 
Gerir a integração do consumo a nível micro com a produção integrada na rede e fazer essa gestão de forma otimizada com todos os parceiros e com justas regras de mercado é um desafio da nossa sociedade.

Até que ponto o atual contexto económico de crise pode condicionar os progressos de Portugal em matéria de prospeção e investigação na área da energia?

O atual contexto obriga-nos a ser mais conscientes nas decisões a tomar. Este facto é válido para a Europa e ainda mais para Portugal. As estratégias das políticas de incentivos e de investigação devem ter por base informação quantificada da estimativa dos resultados das mesmas.

Há na Europa um novo organismo dentro do Joint Research Center, o SETIS (Strategic Energy Technologies Information System), que foi criado recentemente para produzir este tipo de monitorização e avaliação. O LNEG tem vindo a apostar na oferta deste tipo de análise para estar capacitado no apoio às políticas públicas. Por outro lado, Portugal através do LNEG, é membro da European Energy Research Alliance, instrumento impulsionado pela EC para luta contra a fragmentação da investigação na Europa, que visa apoiar/dialogar com a indústria europeia  com vista a recuperar a liderança em termos de inovação para a Europa.

Portugal tem que apostar em boas parcerias com os nossos parceiros comunitários. Temos que ser bons para garantirmos a entrada em parcerias ganhadoras de fundos comunitários. Para garantirmos a excelência temos que apostar no enfoque. Esta é uma palavra-chave no LNEG. Estamos a concentrar todos os esforços nas áreas em que temos provas dados com avaliação internacional. Em parceria seremos sempre ganhadores nos avanços alcançados na Europa.

Quanto à prospetiva de recursos não totalmente conhecidos ou com elevado risco associado, o LNEG está disponível para colaborar com o seu conhecimento no acelerar de eventuais descobertas a curto prazo.

Como avalia o processo de participação dos cidadãos na co-geração de energia? O que mais poderia ser feito nesta vertente?

Há um potencial enorme para a participação dos cidadãos neste processo. O produtor-consumidor inteligente terá de ser uma realidade num futuro próximo se queremos atingir as metas a que nos propusemos.
Os cientistas de política e de políticas da sociedade têm um contributo importante ao nível da adoção sócio-política de inovações, de acelerar a atratividade das tecnologias de baixo carbon e dos utilizadores de uso-final e ainda de educar as gerações mais jovens.

Numa época em que grande parte dos portugueses tem acesso a tecnologias de informação e comunicação, qual é o melhor caminho para proporcionar ao consumidor e às empresas uma melhor e mais eficiente gestão da energia?

As TIC têm um papel múltiplo, por um lado são um elemento fundamental para uma gestão optimizada da rede, em concreto da rede de distribuição, neste caso ao nível técnico de comunicação da informação. Por outro lado, são um elemento crucial para a decisão avisada dos consumidores, neste caso numa óptica mista de decisão própria com comunicação avançada. Por último são um elemento fundamental na indução de comportamentos ideais, quer pela disseminação de incentivos, quer pela disseminação das melhores práticas. As políticas consistentes de aapoio à investigação com metas quantificadas e bem definidas e monitorizadas/avaliadas no processo de aplicação são cruciais. A sua coerência com iniciativas privadas pode trazer benefícios acrescidos.
 
O LNEG representou Portugal na Second European Energy Conference. Como decorreu esta participação e que importância teve para o setor em Portugal? Quais os próximos passos previstos?

O LNEG foi organizador de um simpósio em redes de energia e armazenamento na E2C patrocinada pelo comissário para a Energia Gunther Ottinger. Nesse simpósio participaram por Portugal, a convite do LNEG, vários centros de investigação nacional representativos do que melhor se faz em energia Lisboa, Porto (FEUP) e Coimbra (FCTUP). Este evento permitiu a nossa afirmação entre os pares europeus e simultaneamente participar numa discussão aberta sobre o futuro com presença de atores importantes como o Hervé Pero, atual Diretor de Energia da DG Research & Inovation.

 

In OJE - Especial a 1 de junho de 2012

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