Crónica urbana que nos fala do Museu Geológico, do crocodilo do Vale de Chelas e de mundos desaparecidos

O Crocodilo do Vale de Chelas | Revista 2 do Jornal Público | 24 de fevereiro de 2013

Ilustração de Mónica Cid

Por razões que não são relevantes para esta história, passo muitas vezes de carro por volta das sete e meia da manhã pelo Vale de Chelas e lembro-me sempre do crocodilo. Nunca o vi claro. As nossas existências coincidiram no espaço mas não no tempo - ele andou por aqui há milhões de anos quando a paisagem era, imagino, de pântanos e estranhas árvores e animais entretanto desaparecidos. Eu percorro este caminho, meio desolado ao amanhecer, passando primeiro pelos velhos palacetes, alguns já em ruínas, antigas fábricas, muitas hortas (os terrenos continuam a ser férteis), uma rotunda, uma bomba de gasolina.

Não é inteiramente verdade que nunca o tenha visto. Na realidade conheci-o, ou o que resta dele, numa das salas do Museu Geológico de Lisboa, no edifício de um antigo convento na Rua da Academia das Ciências. Trata-se de uma cabeça completa, guardada numa caixa de vidro, e é um dos vestígios mais bem conservados do que terá sido Lisboa, na zona do Vale de Chelas, quando a era de os homens dominarem o planeta ainda vinha muito longe.

Segundo o material do museu, terá sido há cerca de 12 milhões de anos que este majestoso animal - calcula-se que teria um comprimento entre os oito e os nove metros - arrastou o corpanzil por esta "vasta zona alagada onde viviam também mastodontes e muitos dos animais antepassados dos que hoje se encontram na África tropical húmida". Ali conviviam, num clima quente e carregado de húmidade, no meio de uma floresta densa, rinocerontes, hipopótamos primitivos e até o famoso tigre dentes de sabre.

Milhões de anos mais tarde, a zona do Vale de Chelas tornou-se muito procurada pelas suas areias, usadas para a construção. Por toda a área surgiram areeiros e rapidamente geógrafos portugueses, percebendo o potencial da situação, contactaram os trabalhadores destes areeiros, pedindo-lhes que os avisassem caso encontrassem vestígios que lhes parecessem interessantes. Aparecem muitos, mas o mais espetacular é o crânio do crocodilo.

No velhinho Museu Geológico, o crocodilo não está sozinho. Ali estão restos de outros crocodilos, e de dinossauros e pterosauros, e também dos nossos antepassados mamíferos de há 150 milhões de anos, mais parecidos com roedores ou insectívoros, encontrados na antiga mina de Guimarota, próximo de Leiria. Ou, muito mais antiga, uma "flor de um mar desaparecido", a crinóide, que viveu há 470 milhões de anos no fundo dos mares do Período Ordovícico e foi encontrada na zona de Valongo. Ou as primeiras flores de Portugal vindas de uma das mais antigas jazidas que se conhecem no mundo, próximo do Cercal, Torres Vedras.

Ou ainda o impressionante esqueleto de um dinossauro herbívoro, um animal com armadura e quase sete metros de comprimento (mesmo assim mais pequeno que o nosso amigo crocodilo), que viveu no Jurássico Superior, há cerca de 150 milhões de anos, nas imediações da Lourinhã. E - o animal que menos prazer me daria encontrar mas que aqui, felizmente, está fossilizado - as "baratas" (sim, são aparentemente o animal mais resistente do mundo) que viveram no Período Carbónico, há cerca de 300 milhões de anos, nas densas florestas pantanosas que nessa altura cobriam o que viria a ser o Norte de Portugal. As asas destes insectos ficaram gravadas em fósseis encontrados em S. Pedro da Cova e Pejão.

Todos estes vestígios de mundos desaparecidos convivem nas vitrines deste museu ao estilo do século XIX, a lembrar-nos que o tempo é muito mais vasto do que aquilo que tendemos a pensar.

E foi assim que aos meus olhos ensonados, nas manhãs de nevoeiro quando os faróis do carro tentam romper a muralha cinzenta e esta lhes devolve a luz ainda mais opaca, Chelas começou a parecer-se cada vez mais com a floresta húmida e pantanosa que foi em tempos.

E não me surpreenderia se, um dia, um crocodilo plácido mas implacável, com um saber vindo de uma sobrevivência de milhões de anos - semelhante talvez ao que percorre as brumas africanas no filme Tabu, de Miguel Gomes -, surgisse em frente do meu carro, talvez ali a seguir à rotunda entre o hipermercado e a bomba de gasolina.

Texto de Alexandra Prado Coelho

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In Revista 2 do Jornal Público em 24 de fevereiro de 2013

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