Teresa Ponce de Leão, Presidente do LNEG

Desenvolver conhecimento em prol da sociedade

Entrevista de Teresa Ponce de Leão, Presidente do LNEG, à Revista Negócios de Portugal

O LNEG é uma instituição de I&D orientada para responder às necessidades da sociedade e das empresas. Apostando numa investigação sustentável, a par do que melhor se faz internacionalmente, garante ter nas suas áreas de competência uma resposta adequada às necessidades do setor empresarial.

Como surge o Laboratório Nacional de Energia e Geologia e em resposta a que necessidade?

O LNEG é um laboratório de estado cuja designação nos congéneres na Europa é Research and Technology Operator (RTO), inclusive, existe uma associação, a EARTO que agrega este tipo de organizações. Nos EUA existe uma figura semelhante aos laboratórios de estado cuja missão é o apoio ao governo americano nas diferentes áreas setoriais. São os National Laboratories. Estas instituições trabalham, muitas vezes em parcerias com as universidades, para acumular conhecimento setorial que deve estar disponível para apoio às políticas públicas e para o desenvolvimento da sociedade. O LNEG surge na sequência da extinção do INETI e para colmatar estas necessidades nas áreas da energia e da geologia que, em muitas circunstâncias, são complementares. Os congéneres do LNEG nos EUA são o National Renewable Energy laboratory NREL e o Lawrence Berkeley National Laboratory. A nível europeu há vários exemplos como o SINTEF na Noruega ou o VTT na Finlândia. Todos respondem à necessidades da sociedade.

 

Quais os principais objetivos do LNEG?

Os objetivos do LNEG são muito simples, desenvolver conhecimento para apoio às políticas públicas e para a sociedade. Ao investigar e divulgar o conhecimento do território está a cumprir esta missão na sua forma mais nobre. Disponibiliza conhecimento em matérias ambientais, de ordenamento de território, de recursos nacionais e de energia que é útil à sociedade. Em suma, o LNEG trabalha para colocar as suas competências ao serviço do país.

 

Explique um pouco do trabalho que desenvolvem. Que serviços prestam e quais as empresas e/ou entidades com as quais trabalham?

Em primeira instância somos o braço do conhecimento do território do governo pelo que apoiamos as políticas públicas com base neste conhecimento avançado. É exemplo o levantamento da informação que conduziu à produção do relatório do potencial mineral de Portugal, a cartografia nacional da geotermia de baixa entalpia, a cartografia nacional do potencial das ondas ou a transposição das sucessivas diretivas em termos de eficiência energética. Colmatámos uma necessidade de conhecimento, com base na informação do território que gerimos o que as universidades não têm vocação para fazer. Sem conhecimento é impossível tomar decisões. Sem conhecimento não há inovação. Sem conhecimento não há crescimento económico.

 

O LNEG desenvolve trabalhos nacionais e de cooperação europeia. Que trabalhos são esses? Explique em traços gerais cada um deles.

O LNEG é membro executivo da European Energy Research Aliance (EERA) e de outras alianças internacionais como, por exemplo, o EuroGeoSurveys (EGS). Também é membro de alianças nacionais. A nível internacional é parceiro de vários Joint Programmes (programação conjunta), Solar Concentrado, Solar Fotovoltaico, Vento, Smart GridsSmart Cities, Geotermia, Fuel Cells, BioEnergia são exemplos de programas em que o LNEG participa. Estes programas foram organizados entre os parceiros com vista a responder a lacunas e a unir competências europeias lutando contra a fragmentação da investigação no espaço europeu. Do lado da geologia, o EGS tem uma intervenção algo similar. A nível nacional o LNEG participa ativamente nalgumas plataformas como o EnergyIn, o Cluster Habitat Sustentável, o Cluster Valor Pedra ou ainda a Plataforma Portuguesa para a Geotermia.

Há uma outra vertente importante para a definição das políticas públicas que resulta da participação em várias European Industrial Initiatives e ainda em vários Grupos de Trabalho da Agência Internacional de Energia.

 

Como é que surgem esses trabalhos de cooperação europeia?

O LNEG enquanto instituto de investigação candidata-se em regime competitivo a fundos disponíveis, sejam nacionais, sejam europeus. Por outro lado, o setor empresarial procura as competências do LNEG para o desenvolvimento das suas ideias. O LNEG colabora quer em regime contratual quer no apoio a candidaturas a fundos estruturais ou europeus.

 

Estão munidos de vários equipamentos. Podemos depreender que os investimentos são avultados em qualquer parte do mundo. Tudo depende das apostas estratégicas dos governos.

É verdade. Os investimentos para demonstração em investigação são sempre muito avultados. O LNEG, como qualquer outro laboratório de estado, diria mesmo como qualquer entidade do Sistema Científico Nacional, não tem tido acesso aos montantes necessários a grandes infra-estruturas tecnológicas. No entanto, este não é apenas um problema nacional e daí haver uma iniciativa europeia para as infra-estruturas tecnológicas. O LNEG tem estudado o problema tentando, por um lado, criar massa crítica nacional e, por outro, participar nestes projetos ESFRI que visam agregar esforços para a criação de grandes infra-estruturas europeias. Já há alguns exemplos com o ESFRI vento coordenado pela Dinamarca, ou a Plataforma Solar de Almeria ou ainda a European Joint Undertaking for ITER. Na calha estão outras iniciativas como a Iniciativa das Infraestruturas de dados que o LNEG muito acarinha, uma vez que o seu grande capital é ser o repositório de uma enorme quantidade de informação nas suas áreas de intervenção.

 

Qual a importância da utilização da Biomassa para a produção de energia?

Portugal é um país sem recursos fósseis, pelo menos que se conheçam de forma explorável. A Europa tem um problema similar. Apesar de haver países com jazidas para explorar, a Europa é dependente energeticamente. Por outro lado, o mundo, para cumprir o cenário 2DS (em 2050 apenas um aumento da temperatura média global de 2ºC), necessita do contributo de todas as fontes de energia não poluentes incluindo a Eficiência Energética (que significa reduzir as necessidades de energia o que na gíria se designa como megawatts). Assim, a exploração da Biomassa é algo que o LNEG estuda como fonte a tornar economicamente viável por esta razão e também porque a sua exploração na vertente florestal, ajuda a contribuir para o problema dos incêndios no nosso país.

 

Existe um aumento dessa utilização?

Há um aumento generalizado da utilização de energias renováveis e a biomassa não é exceção. No entanto, muito há a fazer ao nível da sensibilização. O LNEG como parceiro do Centro da Biomassa para a Energia está a estudar formas de exploração desta parceria, inclusive na sensibilização do cidadão comum para esta oportunidade. A outros níveis na BioEnergia o LNEG é o Laboratório de Estado capaz de atribuir certificados de sustentabilidade dos biocombustíveis obrigatórios pela legislação comunitária.

 

Há hoje uma mentalidade diferente em relação à importância desta utilização?   

Não é uma questão de mentalidade mas sim de saber quantificar de forma clara quais as vantagens da utilização de fontes renováveis em termos económicos e aqui saliento que o ambientalmente correto pode ser positivo em termos económicos desde que as decisões sejam adequadas. Já ao nível da eficiência energética há ainda muitos comportamentos a mudar seja ao nível das pessoas, seja ao nível das instituições, seja ainda ao nível das comunidades.


In Revista Negócios Portugal a 12 de julho de 2013



 

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