Minas de Neves-Corvo e Aljustrel primam pelo uso de tecnologia avançada

Entrevista a João Xavier Matos, geólogo do Laboratório Nacional de Energia e Geologia

Mestre em Geologia Económica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, João Xavier Matos é geólogo do Laboratório Nacional de Energia e Geologia desde 1990. Trabalhou em vários projetos de investigação científica na área da Faixa Piritosa Ibérica, em prol do património geológico e mineiro, fomentando em particular a Rota da Pirite. Agora, fala do Festival Terras Sem Sombra, que junta a música sacra a ações de biodiversidade, dos recursos mineiros, das minas do Alentejo, entre outros assuntos.

Texto João Villalobos

João Xavier Geólogo tem trabalhado em vários projetos na área da Faixa Piritosa Ibérica

Não é de todo habitual juntar música sacra e ações de biodiversidade. Como lhe parece que têm respondido as pessoas a esta mistura de "universos"?
O desafio do Festival Terras Sem Sombra é muito interessante, pois alia cultura e ciência num mesmo espaço territorial. No caso de Grândola, foi evidente a empatia, entre o programa musical e a descoberta da geodiversidade de uma mina da Faixa Piritosa, como é o caso do Lousal. Ao sentimento dos concertos, associámos um olhar diferente sobre as rochas e os recursos geológicos. Com a visita à galeria Valdemar foi possível ver o lado subterrâneo da geologia.

Que características específicas apresenta o Alentejo Litoral em termos de geodiversidade, face ao resto do País?
O Alentejo Litoral permite observar várias sequências geológicas de idades diferentes como o Cenozoico, representado na Bacia de Alvalade, o Mesozoico, identificado na Bacia de Santiago do Cacém e Maciço de Sines, e o soco Paleozoico, representado pela Zona Sul Portuguesa. A geologia enquadra-se num cenário paisagístico muitas vezes deslumbrante, com diferentes geomorfologias associadas quer à evolução do litoral, quer à presença de relevos de origem tectónica e de erosão diferencial.

E quais as principais preocupações ambientais para as quais devem ser apontadas as prioridades?
A ação programada para a mina do Lousal, encerrada em 1988, versou também sobre a recuperação ambiental de um espaço mineiro degradado. Depois do investimento realizado pela empresa EDM, os problemas ambientais da mina, associados a efluentes ácidos, estão agora mais controlados e minimizados. Felizmente, nas minas atuais, toda a atividade extrativa decorre com um impacto mínimo para o meio ambiente.

Nos últimos anos têm-se vindo a efetuar uma recuperação de zonas degradadas por antigas explorações mineiras no Lousal. Quando poderão estar terminados estes trabalhos?
Os programas de reabilitação ambiental de áreas mineiras são sempre complexos, pois existem muitas variáveis associadas aos trabalhos de superfície e subterrâneos. Normalmente a reabilitação é feita por fases. No caso do Lousal, a corta já se encontra reabilitada e está em curso a fase final de controle dos efluentes ácidos.

Com uma vasta carreira dedicada aos recursos geológicos e minérios, diga-nos como correm as atividades de prospecão no Alentejo?
A prospeção de jazigos é feita por empresas, que assumem o risco do investimento em técnicas geológicas, geofísicas e geoquímicas. O Laboratório Nacional de Energia e Geologia apoia a atividade de prospeção, permitindo o acesso ao seu enorme banco de dados. Neste incluem-se milhares de mapas temáticos e centenas de sondagens mecânicas, com informação essencial sobre as sequências geológicas do Alentejo. Desde 2010 foram descobertas três massas de sulfuretos na Faixa Piritosa, o que naturalmente aumentou o interesse na sua prospeção.

Sente que a preocupação com as questões da sustentabilidade têm vindo a crescer em Portugal?
O fator sustentabilidade é cada vez mais importante em todos os projetos. Só assim poderemos ter resultados consolidados no curto e médio prazo.

Como é que explica o modesto investimento no sector mineiro quer na Europa, em Portugal e, especificamente, no Alentejo?
O investimento mineiro em Portugal não é modesto, mas sim adequado face ao potencial dos recursos geológicos existentes. Temos várias minas ativas de minérios metálicos sendo as principais (Neves Corvo e Aljustrel) localizadas no Alentejo. Ambos os projetos primam pelo uso de tecnologia muito avançada, sendo uma clara mais-valia para a economia da região e do País.

Com principal foco na geologia do Sul do Alentejo, gostaria de lançar um desafio, à organização do festival, sobre uma eventual iniciativa para as próximas edições?
Em conjunto poderemos explorar outros lugares, por exemplo a mina de São Domingos e o vale do Guadiana, exemplos de ampla geodiversidade e de lugares cheios de História.


Fonte: Diário do Alentejo a 8 de maio de 2015

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