Portinho da Arrábida está reduzido a um terço do que já foi

Praia mais emblemática da Arrábida, conhecida muito antes de Galapinhos que é hoje considerada a melhor da Europa, está reduzida a 37% do comprimento e cheia de pedras no lugar da areia. Estudo do LNEG recomenda plano de intervenção

FRANCISCO ALVES RITO

Portinho da Arrábida - foto de MIGUEL MANSO

MIGUEL MANSO

O Portinho da Arrábida, uma das mais belas praias da Arrábida, está hoje num “estado de degradação” que recomenda um plano de intervenção, conclui um estudo elaborado pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG) divulgado nesta terça-feira em Setúbal.

Segundo o estudo, coordenado por Luís Pina Rebelo e Sílvia Nave, da Unidade de Geologia, Hidrogeologia e Geologia Costeira do LNEG, o Portinho é uma “praia em mudança” em que o areal diminuiu de “forma acentuada” nos últimos 100 anos, “reduzindo substancialmente” a qualidade balnear.

“A dimensão da praia diminuiu significativamente, sendo que o seu comprimento está reduzido a 37% e a sua área a 40%”, refere o estudo que menciona também o aumento da “percentagem relativa de calhaus”. A praia que tinha 1767 metros de comprimento tem agora 665 metros e a área passou de 105 mil metros quadrados para 45 mil.

A redução da areia deixou a descoberto, também, afloramentos de argila que tornam a água barrenta. “Com as marés, duas vezes por dia, temos libertação de argila para a água”, explicou Luís Rebelo, acrescentando que o fenómeno parece poluição mas não é. “Apenas torna a água desagradável para tomar banho”, assegura.

De acordo com o estudo, “a tendência erosiva tem-se mantido, e o recuo da linha de costa, embora lento, começa já a atingir a duna localizada no extremo oeste da Praia do Creiro”, pelo que os responsáveis defendem a necessidade de intervenção.

Nas conclusões do estudo é recomendado um “plano de intervenção” que passe pela limpeza do areal existente, a resolução do problema da água que escorre das encostas da serra e a colocação de areia nova “com características idênticas à existente”.

Os especialistas aconselham ainda a elaboração de um estudo que “permita compreender a dinâmica dos sedimentos na parte superior do delta e na zona submersa da praia, aspecto fundamental para encontrar as respostas para as variações observadas”.

Luís Rebelo e Sílvia Nave concluíram que os “indicadores geológicos apontam para que as variações na quantidade de areia na Praia do Portinho possam ser encaradas como um fenómeno natural”, mas não descartam a hipótese de as dragagens na barra do rio Sado terem contribuído também para a degradação da praia.

“Devido à estreita ligação da praia com o delta do Sado, as acções de fixação do canal de navegação e de dragagem do mesmo canal, ao promovem alterações na dinâmica do delta, poderão ter consequências negativas na dimensão da praia”, refere o estudo.

O Portinho é historicamente uma das mais emblemáticas praias da Arrábida - considerada uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal em 2010 – exibia uma beleza ímpar conferida pela baía em que está inserida, de características naturais únicas em Portugal.

Neste aspecto, o estudo do LNEG destaca “o relevo da zona envolvente, marcado pela imponência da Serra da Arrábida, onde predominam íngremes penhascos e encostas de acentuado declive, a vegetação mediterrânica, as areias claras e as águas calmas e cristalinas, com tonalidades ora azul, ora verde-esmeralda”.

O estudo agora apresentado foi sugerido pela Clube da Arrábida, uma associação de cerca de 350 pessoas, entre moradores e comerciantes, que sonha “voltar a ver o Portinho com areia”, como disse o presidente da direcção. Pedro Soares Vieira defende que a oportunidade do estudo é “crucial”, por ter sido apresentado na altura em que a Agência Portuguesa do Ambiente transferiu a gestão das praias da Arrábida para o Município de Setúbal, através de um protocolo assinado recentemente.

A presidente da câmara sadina prometeu “apoiar a estruturação de uma intervenção integrada”, embora recorde que “muito do que há para fazer nem sequer será competência municipal”, e anunciou já alguns investimentos para o local.

“Algumas das acções previstas são a construção do novo cais de apoio à náutica de recreio, com capacidade para servir também embarcações que venham a fazer carreiras regulares para o Portinho e o arranjo da área pedonal adjacente ao cais, com a implantação de áreas de estadia com mobiliário urbano adequado”, disse Maria das Dores Meira.

A autarca anunciou ainda obras no parque de estacionamento da praia, com reforço da iluminação e novo pavimento.

No último estudo sobre a ‘Percepção dos utilizadores das praias do PNA’, relativo aos anos de 2013 e 2014, divulgado em Fevereiro de 2015, o Portinho da Arrábida era apresentado como uma praia de tipo 3, seminatural, com capacidade de carga de 1.642 pessoas, que, juntamente com a Praia dos Coelhos, registou um total de 45 mil visitantes e 13 mil carros.

Em notoriedade, no conjunto das praias da Arrábida, o Portinho foi entretanto ultrapassado por Galapinhos, considerada a melhor praia da Europa de 2017 pelo site European Best Destinations.

Trata-se de praias “vizinhas” que beneficiam do mesmo enquadramento e características naturais.

 


Fonte: www.publico.pt a 4 de julho de 2017

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